Há 40 anos, praticantes de capoeira enfrentavam preconceito
Nino aprendeu a jogar capoeira com os mestres Suassuna e Brasília, em São Paulo, na Academia Cordão de Ouro, a partir de 1967. Era baterista consagrado e havia tocado com Zimbo Trio, Dick Farney e até com um dos maiores trompetistas do jazz, Dizzy Gillespie, em 1961, na boate Farney’s, que ficava na Praça Roosevelt, no Centro de São Paulo.
Com o mestre Brasília, aprendeu o estilo da capoeira angola, o mais antigo, que tem como características o ritmo musical lento, golpes jogados mais baixos, próximos ao solo, e muita malícia. O mestre Suassuna transmitiu-lhe os ensinamentos da capoeira regional, que mistura o estilo da angola com o jogo rápido de movimentos, golpes mais rápidos e secos. Quando montou sua academia em Jaú, era batizado e cordão azul.
“Fui formando a academia com os vizinhos, moradores próximos a minha casa”, lembra Nino. Com o tempo, o número de jogadores cresceu, a procura se intensificou, embora o preconceito se fizesse sempre presente. “Cheguei a levar alunos para apresentação em escolas de Mineiros do Tietê, nas quais contava a história da capoeira, que foi a primeira manifestação de liberdade nesse País”, comenta. “Em Jaú, nenhuma escola quis saber.”
Nino formou capoeiristas que se tornaram entusiastas como Acúrcio Nascimento, Malvina Nascimento - que consta ser a primeira mulher capoeirista do Brasil – e mestres, como Norberto B. de Melo, o Betão, já falecido. “Betão foi meu melhor aluno. Passei minha academia para ele em 1976 e passei a me dedicar à Língua Portuguesa, embora continuasse dando aulas de capoeira aos fins de semana.” Nino é professor doutor em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de São José do Rio Preto e ministra curso de redação há vários anos em Jaú.
O Município, com Nino, Betão, Nilson Rosa, Marcial Augusto Lopes, Caculé, Silvio e outros se tornou grande formador de jogadores e divulgador da prática capoeirista, que foi tombada como patrimônio histórico imaterial e incluída como modalidade brasileira nos Jogos Regionais e Abertos. Segundo Nino, a capoeira de Jaú foi 28 vezes campeã paulista e três vezes campeã brasileira. “Hoje o mestre Marcial preside a Federação Brasileira de Capoeira”, diz.
Origem
O professor Nino conta que a capoeira surgiu entre 1624 e 1625, na época em que o Brasil sofreu invasão pelos holandeses. No confronto, que reuniu portugueses, mestiços, índios e negros africanos de várias etnias contra os invasores, houve fuga de grande número de escravos, que se embrenharam nos capões de mato, as capoeiras. Perseguidos por capitães-do-mato, desarmados, em inferioridade numérica, os negros, que seriam da etnia Bantus, passaram a observar na natureza um pássaro conhecido por uru. “Trata-se de pássaro que briga gingando e só com os pés”, relata. “Incorporando os movimentos do pássaro as suas danças, criaram uma maneira de se defender dos perseguidores.”
Hoje, segundo Nino, há 8,5 milhões de praticantes da capoeira no mundo todo. “Há mais de 400 mestres de capoeira ensinando, em português, somente na Europa”, diz. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que a capoeira está presente em mais de 150 países e é a maior embaixadora da língua portuguesa no mundo. (JRAP)







