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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Cemitério Municipal Ana Rosa de Paula de Jaú - alguns significados da sua Arte Cemiterial

Por Julio Cesar Polli - graduando em História, Diretor do Museu Municipal José Raphael Toscano.

Quando falamos sobre Cemitérios é bem comum que as pessoas digam "credo". Geralmente não é um ponto de encontro favorito e agradável para as pessoas. O que não se pode negar no entanto é o fato do Cemitério ser um lugar curioso. Não é raro em enterros nos depararmos com as pessoas parando e lendo um epitáfio aqui, lendo outro ali, vendo uma foto, enfim, os túmulos as atraem. Portanto Cemitério é um lugar de cheio de Histórias, várias delas, principalmente sobre a vida  e a morte das pessoas que agora ali descansam.
Obedecendo a lei de seu tempo e influenciados pelos gostos e costumes europeus, a rica sociedade jauense investia fortunas nos adornos de seus túmulos e jazigos entre o fim do século XIX até a primeira metade do século XX.  Então, alem das Histórias temos no Cemitério a manifestação artística que interpreta a vida e a morte.
Neste período a manifestação artística se dava através da Arte Cemiterial. O estudo da Arte Cemiterial nos possibilita entender determinado contexto histórico, ideológico, social e econômico. Ela interpreta a vida e a morte das pessoas e posse ser de forma simbólica ou narrativa.
Nesta pequena pesquisa estaremos demonstrando e explicando os símbolos mais utilizados na Arte Cemiterial do Cemitério Municipal Ana Rosa de Paula em Jaú (SP)


O Cemitério Municipal Ana Rosa de Paula, Jaú (SP) - Brasil 

 
 O Cemitério Municipal Ana Rosa de Paula, foi inaugurado no dia 16 de outubro de 1894, sendo o primeiro sepultamento o de uma criança espanhola de 9 meses de nome Pedro Rosa. Antes esta área pertencia a Fazenda Óleo. Foi adquirida pelo município e em 1893 o agrimensor português Antonio Ferreira Garcia de Andrade Junior fez a planta. Executaram os trabalhos os italianos José Casseli e Berti Jacopo.
A área original começava nas atuais quadras G, B, H, C, I, D, P e E.  Nos anos 30 foram abertas as quadras F e A. A parte nobre no inicio são as quadras B, C, D e E, denominada "Área Especial". E a "Área Comum", destinada a sepultamentos de pessoas que não tinham dinheiro para adquirirem um terreno no Cemitério começava nas atuais quadras G, H, I e P e era rotativo.




 Anjo que indica -  apontam a direção

Coluna Quebrada - o que muitos supõem ser fruto de vandalismo mostra que ali jaz o último membro de uma família tradicional. (*) Também significa a morte de pessoas jovens ou de crianças (ver mais abaixo)



Guirlanda - Significa homenagem.

Patas do Felino - Comum no túmulo de patriarcas, lembra que eles eram responsáveis pelo sustento do seu clã (*)


Ancora - É símbolo da salvação, da esperança e da estabilidade.


M.M - do latim Memento Mori, lembre-se que irá morrer.




Ceifadeira - A arma utilizada pelo ceifador (a morte), um dos 4 cavalheiros do apocalipse na "colheita das almas".

Cruz - A fé cristã.

Livro da Vida ou Bíblia - Representa a fé, a aprendizagem e a memória.


Ampulheta alada- Símbolo da transitoriedade da vida,  o tempo que voa. Possibilita a reversão, ou seja, o recomeçar em outro plano.

Fogaréu - Simboliza o elemento fogo, por imitação da luz e calor do sol, destruição das forças do mal pela purificação.
Urna - Local onde os gregos depositavam as cinzas dos seus mortos. O pano sobre a urna simboliza o luto.

Tocha - A tocha identifica-se com o Sol e constitui o símbolo da purificação através da iluminação.


Tocha invertida - Também simboliza uma vida que partiu cedo. A morte é vista como uma inversão ao sentido normal da vida pois a pessoa partiu com a "chama da vida ainda acesa" .

Coluna quebrada - Símbolo da vida que se quebrou. Em geral são encontrados em túmulos de crianças ou jovens.
Coluna - Símbolo da estabilidade, solidez pessoal, social. Na foto, o túmulo de Torello Dinucci, o imigrante italiano que construiu a torre da Matriz N. Sª do Patrocínio em 1905. Duas colunas também significam passagem, ou seja, a passagem deste mundo para outro.


Ramos de Palma - Simboliza  a ressurreição de Cristo.

XP - (Qui, Rô) Iniciais em grêgo do nome Cristo (CR).


Alegoria de anjo inconsolado ao lado de uma coluna quebrada (simbolo da morte prematura) segura em suas mãos um ramo de palma. (crença na ressurreição)






Biografia:

CIRLOT, Juan Eduardo. Dicionário de Símbolos, Publicações Dom Quixote, 2000
CHEVALIER, Jean. Dicionário dos Símbolos, Teorema, 1994.
CYMBALISTA. Renato. Cidade dos Vivos. Annablume, 2002.
TRESIDDER, Jack. Os símbolos e o seu significado. Círculo de Leitores, 2000
VALADARES. Clarival do Prado. Arte e Sociedade nos cemitérios brasileiros.D. I. Nacional, 1972 

Sites consultados:

Site da Câmara Municipal do Porto - Portugal (2010)

Fotos: Julio Cesar Polli - Jaú (SP) Brasil, 2008/2009

(*) Super Interessante. Códigos do além. Janeiro de 2010, nº 274 página 46-47.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Cemitérios Paulistas - Cemitério Municipal de Assis (SP)

Apesar do blog ser direcionado e dedicado a História de Jahu e sua arte cemiterial será vantajoso o estudo comparativo com outros cemitérios. Verificaremos se existem padrões estéticos. 
Assis (SP) é uma cidade mais nova que Jahu. 
Detalhe de grafite no muro do cemitério de Assis
Fundação de Assis - 1º de julho de 1905.
Em 1º de julho de 1905 o Capitão Francisco de Acis Nogueira efetivou a doação de 80 alqueires de terras de lavrado à igreja, para patrimônio de uma Capela, sob a tríplice evocação do Sagrado Coração de Jesus, de São Francisco de Assis e da Obra – Pio do Pão de Santo Antonio (Fundação de Acis).
Em torno da Capela, foram surgindo as primeiras casas do povoado, que pertenciam a jurisdição do município de Campos Novos do Paranapanema (atual Campos Novos Paulista).
O desenvolvimento do povoado foi devido exclusivamente, ao avanço dos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, que chegaram ao povoado de Acis em 1914. Em 1915, pela Lei Estadual nº 1.496, de 30 de dezembro de 1915, o povoado foi elevado a Distrito de Paz. Dois anos depois, foi criado o Município de Acis pela Lei Estadual nº 1.581 de 20 de dezembro de 1917.
Em 6 de abril de 1918, os vereadores elegeram o primeiro prefeito: João Teixeira de Camargo. Em 8 de abril de 1918, foi aprovado o Regimento Interno da Câmara e adotado o Código de Posturas Municipais de Itatiba, para o município de Acis. A estrada de Ferro Sorocabana foi a responsável pela rápida escalada de Acis, que já em 20 de Março de 1918 passou à sede de comarca. Também abriu caminho para chegada do café, tornando Acis o ponto de convergência de toda a região e base de operação para a colonização do Paraná.
Origem do nome

O nome Assis, o qual a cidade é conhecida hoje, era originalmente Acis e foi batizada assim em homenagem ao fundador do município: Capitão Francisco de Acis Nogueira.O nome foi adaptado anos depois pelos próprios moradores que o escreviam Acis com dois 's'.
Fonte - http://pt.wikipedia.org/wiki/Assis

Na arte cemiterial podemos verificar

Ramos de palma - muitas sepulturas semelhantes a estas ostentavam o símbolo da ressurreição.


A última morada - presença de muitas casas no cemitério, muitas delas com varandas abertas. Construção moderna


Vista panorâmica - entre os túmulos não há calçamento.
Estátua em mármore carrara.
Um símbolo da maçonaria, existem muitos compassos em vários túmulos logo na entrada do cemitério.
Uma obra moderna e uma clássica lado a lado
Detalhe das "mãos"


Aperto de mãos: O aperto de mãos significa união; ou matrimônio entre o falecido e seu cônjuge. Neste caso, uma mão masculina está associada a uma mão feminina (o punho das mangas distinguem os sexos) guiando a outra para o céu.

Arte em cimento
ossuário
capela
Anjo da Anunciação - o anjo "corneteiro"
arte em bronze - artista desconhecido

grafite no muro do cemitério


Abaixo matéria da TV TEM sobre a retirada dos grafites e o protesto gerados  - 



Existem alguns túmulos em mármore carrara, não muitos. Símbolos cemiteriais com maior presença são os ramos de palmas com as cruzes. A diferença de Jahu este cemitério possui muitos túmulos com símbolos maçons. Também existe neste cemitério o seu santo ou beato local, aqui o Monsenhor David. 

interior da capela feita em homenagem a Monsenhor David

sala anexa onde os artefatos são deixados como agradecimento


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Arte Cemiterial de Jaú, cultura e turismo com educação patrimonial

A Arte Cemiterial em Jaú só foi possível pela riqueza do café. Jaú foi a maior embarcadora de café de São Paulo quando o estado era o maior produtor mundial da rubinácea. Impregnado do pensamento positivista de valorização dos feitos heroicos e patrióticos os monumentos foram construídos para admiração. Sua leitura permite interpretar a vida e a morte destas pessoas. Este cemitério foi o terceiro construído na cidade em outubro de 1894 dentro da concepção higienista. A arquitetura é eclética de predominância neo-gótica mas encontramos elementos em Art Decot e Art Noveau. Cheio de curiosidades, rica em fatos e personagens o estudo do cemitério jauense é uma rica aula de História e Arte. Atualmente somente quatro cidades paulistas fazem passeios turísticos em cemitérios: o da Consolação na capital paulista, o de Guarulhos, o de Piracicaba e o de Jaú. Passeios noturnos só ocorrem aqui no Brasil. Na América Latina, depois de Jaú, somente Chile e Colômbia fazem passeios noturnos.


Vista panorâmica da área antiga do cemitério de Jaú - 2011


Um típico "habitante" da necrópole jauense


Foto da cadela "Lalis", única foto de animal no cemitério.


Estátua "Saudade" - obra do famoso escultor ítalo-brasileiro Eugênio Prati...


...que adorna o túmulo de Vitor Cesarino.


Detalhe do túmulo dos Heróis Constitucionalistas de 1932. Traços do modernismo. 


Estátua de Maria de Roque De Mingo - quatorze estátuas catalogadas no cemitério jauense.


Busto esculpido pelo artista jauense Agnelo Lourenzão



Túmulo mais antigo em pé no cemitério - reserva especial nº 6 ...


...de Dona Leonor de Almeida Prado, uma das pioneiras da família Almeida Prado que aqui chegaram em 1858. Faleceu em 1895. Foi casada com Francisco de Assis Bueno


Orozimbo Loureiro, importante político local, os ramos de café em sua sepultura demonstram o status.


O famoso túmulo da "noiva" - estátua em mármore carrara pertencente a família Toledo de Arruda também chama-se "Saudade" e foi encomendada na Europa. Pedidos de casamento são feitos neste túmulo.


São Miguel da Virgem Dolorosa e a famosa "Caveirinha", que segundo a crença local atende os pedidos daqueles que enfiam os dois dedos nas cavidades oculares da caveira. 


Coluna quebrada simboliza a morte de um jovem...


...neste caso o do jovem João Cantarelli Netto, falecido em 25-12-1918 vitimado pela gripe espanhola.


Outra curiosidade no cemitério são estas duas estátuas de costas uma para a outra. Um anjo masculino e outro feminino que abrigam a mesma pessoa...


...Annita Toledo esta neste túmulo...


...e seu nome consta neste outro também.


"Per Crucem ad Lucem" - Pela Cruz se chega a Luz. A utilização do latim era comum no início do século passado no ornamentos mortuários. 

O túmulo acima pertence ao casal Alvaro Carlos de Arruda Botelho e Maria de Andrade Egas Botelho.



Única lápide escrita em inglês no cemitério de Jaú, pertence a Robert Curwen Brooke, falecido em 1921 Pesquisando sobre quem foi este inglês, no obituário encontramos: nome - Roberto Brooke (era comum aportuguesar o nome dos estrangeiros); profissão - "empregado" (hum, não ajudou muito); nacionalidade - "Ingraterra" (o único inglês morto em nosso cemitério é um "ingres") e por fim; motivo do óbito - "firmento por arma de fogo". Em 1921 menos de 50% da população sabia ler e escrever. Neste caso o letrado que trabalhava no cemitério escreveu como ele falava, ou seja em bom "caipires" eta.


Túmulo do primeiro jauense a se formar em medicina, Dr. Antonio Pereira do Amaral Carvalho. Hoje o Hospital Amaral Carvalho é reverencia internacional em tratamento do câncer. As corujas simbolizam a ciência e a sabedoria.


Epitáfio no túmulo do quarto prefeito de Jaú, Dr. João Costa, em português arcaico.


Túmulo do herói nacional, Comandante João Ribeiro de Barros...


... no detalhe da obra feita por Roque de Mingo, a esquerda de Jesus Cristo temos os ramos de palma, que simbolizam a ressurreição, a direita ramos de café, alusão a riqueza da família. Na altura das orelhas de Cristo as palavras em latim "Ecce Homo", Eis o Homem, palavras ditas por Pilatos ao apresentar Jesus a multidão em seu julgamento. É utilizado este dizer em túmulos de heróis...


...pois o Comandante João Ribeiro de Barros foi o primeiro americano a atravessar o Atlântico num voo sem escalas em 28 de abril de 1927.


Agradecimentos a Primo Carbonari do Amplavisão.


Foto mortuária no túmulo de Regina Iolanda Perlati - costume da época - única foto deste gênero na necrópole jauense.




Túmulo do Dr. Julio Speranza, primeiro médico a erradicar-se em Jaú em fins do século XIX...


... e provavelmente o primeiro italiano em Jaú. 


Capela do Criolando...


...ou Coriolando Rodrigues. Criolando como era mais conhecido tinha a premonição de saber quando uma pessoa acabava de falecer na cidade. Era portador de leve deficiência mental, figura dócil, andava com seu cavalo de pau por toda a cidade até ser avisado por um anjo que segundo seu próprio relato indicava a residência do recém falecido. Levava flores para a família.


Vídeo sobre a História do Criolando