segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Jardim de Baixo – de Largo do Rosário a Praça da República.

Julio Cesar Polli
Professor de História
Diretor do Museu Municipal José Raphael Toscano de Jahu– 2014/2015.


A Praça da República, mais conhecida como “Jardim de Baixo” é até hoje um lindo cartão postal da nossa cidade. O lugar recebeu diversas denominações ao longo dos anos, mas sempre manteve seu caráter de utilidade pública para o entretenimento, e embora muitos falem dela, poucos conhecem a verdadeira História desta  centenária praça.
Segundo a professora de História Patrícia Alonso, “o espaço público, nas primeiras décadas da história de Jahu era apenas um descampado onde pastavam animais, existia no local um chafariz para o abastecimento de água da população. A área era conhecida como Largo do Rosário, devido a uma capela localizada nas imediações”. (1)
Em 14 de novembro de 1884 é construído neste local um teatro (2) de nome São Manuel. Fora construído por João Lourenço de Almeida Prado, Manuel Vidal de Carvalho Neves e Manoel Coimbra e por este tempo o lugar passou a ser conhecido como “Largo do Teatro”. O jornalista Murilo de Almeida Prado citando Alberto Gomes Barbosa, afirma em um artigo que este teatro veio a servir de hospedaria de imigrantes e quartel de uma força do exército aqui destacada para a segurança dos trabalhadores do Alto Paraná contra o ataque de índios até que, em fins do século XIX fora reformado pelo Cel. Manoel Coimbra que mudou seu nome para Carlos Gomes (3) .

Figura - Jaú em 1888. Na mesma direção da ponte indo para igreja, o fundo do Teatro São Manoel.


Reformado pelo Cel. Manoel Coimbra, o “novo” Carlos Gomes e o Largo do Teatro continuaram a abrigar inúmeras atrações como, por exemplo, os festejos de 07 de setembro de 1909 (4), cujo programa sobre a independência brasileira se deram no Largo do Teatro e no Teatro Carlos Gomes. Em outubro do mesmo ano realizaram-se os “imponentes” festejos em honra a Nossa Senhora do Patrocínio (5).
O Cel. Manoel Coimbra era segunda descrição da época “português de rija tempera, franco, bondoso e serviçal” (6) e muito atuante na arte de entreter o público. Assim logo trouxe para Jahu o cinematógrafo exibindo diversos filmes no Teatro Carlos Gomes (7).
Havia a preocupação do legislativo em construir um novo teatro em outro local e pertencente à municipalidade. Assim, a Câmara Municipal aprova em 04 de dezembro de 1909 o projeto de Lei chamando concorrentes para a construção de um teatro para diversões públicas, de acordo com a planta e orçamento adotado pela mesma, sendo concedido ao concorrente o uso e gozo do mesmo teatro. Estipulava ainda que o concorrente receberia auxílio para a construção do teatro, a importância de 23:306$200, proveniente do adicional de 20% arrecadados nos anos de 1907 e 1908 e forneceria também o terreno situado na esquina da rua Tenente Lopes com a rua Riachuelo. (8)
Em 29 de dezembro de 1909, publica-se no Jornal Comércio do Jahu, edital chamando concorrentes para a construção dos passeios nos largos da Matriz, do Teatro e Praça Ribeiro de Oliveira (atual Grupo Escolar Estadual Major Prado) (9). Informa a Câmara em sessão ordinária de 03 de janeiro de 1910, foram abertas e lidas três propostas, ganhando o construtor italiano Torello Dinucci pela razão de 6$150 e 6$200 por metro quadrado. (10)

Figura - Festividades no Largo do Teatro, notar o serviço de guias e sarjetas construídas pelo construtor italiano Torello Dinucci. Aproximadamente primeiro semestre de 1910.

Não havendo interessados para a construção do novo Teatro Municipal, em 02 de março de 1910, a Câmara Municipal altera a Lei nº 193 que chama concorrentes para a construção de um teatro facultando a estes a cessão gratuita do terreno na esquina da Rua Tenente Lopes com a Rua Riachuelo, ou outro lugar que melhor convenha, onde deverá ser construído o mesmo teatro. (11)
Em 30 de março de 1910 a empresa M. Coimbra (do Cel. Manoel Coimbra) teve despacho favorável da Câmara Municipal ao seu requerimento para construir anexo ao teatro “Carlos Gomes” um salão de cada lado do mesmo teatro, destinados a servirem de botequim, bilheteria e sala de espera. (12) Em 14 de maio, um sábado, foi inaugurada a espaçosa sala de espera. (13)


Figura Obras de reparo da rede de esgoto na Rua Major Prado, acima perto das carroças é possível verificar o aumento lateral executado pelo Cel. José Manoel Coimbra. Aproximadamente no segundo semestre de 1910.

As discussões sobre onde deveria ser construído o novo teatro fomentou diversos debates na Câmara Municipal até que 16 de maio de 1910 em sessão ordinária foram nomeados os vereadores Orozimbo Loureiro, Álvaro Botelho e cel. José Veríssimo Romão para escolherem o local para a futura construção do novo teatro. (13) Esta comissão apresentou seu relatório na sessão da Câmara de 16 de junho de 1910, contendo o seguinte parecer: “(...) Depois de percorrer os diversos pontos da cidade, assentou a Comissão que o melhor local para a edificação do teatro de que se cogita é o Largo do Teatro em que se acha o Teatro Carlos Gomes, em sua parte inferior de modo que fique o novo teatro com sua fachada voltada para o lado de cima correspondente ao fundo do Teatro Carlos Gomes, tendo fundo na linha da Rua ou Travessa Municipal (atual Rua Conde do Pinhal), guardando o edifício igual distância das Ruas Major Prado e Edgard Ferraz. Uma vez demolido o Teatro Carlos Gomes, ficará uma Rua bem larga na frente do novo Edifício, devendo ser ajardinado o resto do Largo da parte inferior assim como serão ajardinados os espaços laterais do mesmo edifício. Jahu, 16 de junho de 1910 – Álvaro Botelho, José Veríssimo Romão”. O Vereador Orozimbo Loureiro foi contra o parecer argumentando que a cidade perderia sua maior praça e que o local para a construção do novo teatro deveria ser outro. (14)
Em relatório anual publicado em 13 de agosto de 1910 no Jornal Comércio do Jahu (15), a prefeitura afirma que pela constante preocupação com o ajardinamento dos largos e praças da cidade, ordenou que se levantassem as plantas para os jardins e parques a serem construídos na Praça Jorge Tibiriçá e Largos da Matriz e do Teatro, sendo encarregado deste serviço o Dr. José Esteves Ribeiro da Silva, então diretor da repartição de obras do Estado de São Paulo.

Figura - Planta do novo Largo do Teatro, assinada em 24 de dezembro de 1910.

Não existe lei ou decreto que altere o nome de Largo do Teatro para Praça da República, mas o fato é que isto ocorreu em agosto de 1910 durante a intendência de Constantino Fraga. A primeira menção encontrada nas Atas da Câmara de Praça da República ao invés de Largo do Teatro aparece por meio de uma representação de moradores apresentada em 16 de agosto de 1910 ao qual os “moradores da Praça da República” no trecho em que estava sendo reformado o calçamento pediam agilidade nos trabalhos, alegavam eles no oficio que a morosidade do referido serviço “tem-lhes causado grandes prejuízos, visto que aquele trecho da Rua esta intransitável”. (16) No dia seguinte, ou seja, 17 de agosto de 1910 (17) aparece publicada no jornal Comércio do Jahu a primeira menção a Praça da República através de uma notícia avisando que em virtude dos consertos realizados no Jardim Público (atual Praça Siqueira Campos), as bandas de musica tocariam aos domingos na Praça da República, sendo para isso construído um coreto provisório e removidos para aquele lugar os bancos do jardim. Este coreto foi edificado por iniciativa do cel. Manoel Coimbra coadjuvada pelos comerciantes da Praça da República (18).

Figura - Em 16 de agosto de 1910, os moradores da Praça da República reclamaram junto a Câmara Municipal que no trecho em que estava sendo reformado o calçamento (Rua Major Prado) que a morosidade do referido serviço “tem-lhes causado grandes prejuízos” e por isso pediam agilidade. Ao fundo algum circo instalado na Praça.

O Largo do Teatro simplesmente foi renomeado como Praça da República em agosto de 1910 e era completamente diferente da Praça da República que conhecemos hoje, pois ainda abrigava em seu centro o Teatro Carlos Gomes e agora um coreto improvisado.


Figura - O coreto construído em agosto de 1910 para abrigar as bandas enquanto o Jardim Público (Praça Siqueira Campos) estivesse em reforma.

A planta da Praça da República que conhecemos foi assinada pelo engenheiro José Esteves Ribeiro da Silva em 24 de dezembro de 1910 na capital paulista, mas seus trabalhos não se iniciaram no ano seguinte, 1911, como é comumente mencionada sua inauguração. Aliás, na referida planta consta o nome “Largo do Teatro”.
Por motivos que ignoramos a principal corporação musical da época em Jahu, a banda Carlos Gomes, regida pelo maestro italiano Heitor Azzi se apresentou pela primeira vez nesta Praça da República em 15 de novembro de 1911 (19) como parte dos festejos da proclamação da República executando o seguinte programa a partir das 18 horas:
1 – F. Manoel – Hino Nacional
2- Calzelli – Marcha Peripatética
3 – Berger – Valse Enchantée
4 – Zeller – O vendedor de pássaros – Pot-pourri
5 – Strauss – Sonha de Valsa
6 – Dall’argine – Robinson Crusoé
7 – Campedelli – La vittoria – Marcha Militar
8 – F. Manoel – Hino Nacional
“A noite realizou-se um animado baile no Teatro Carlos Gomes que se prolongou até a madrugada” noticiou o cronista do Comércio do Jahu na ocasião.
A Praça da República também abrigava nesta época apresentações de Circo, como noticiado em 13 de janeiro de 1912 no Comércio do Jahu.
Figura - O Jardim Público (atual Praça Siqueira Campos) após a reforma de 1911. Ao fundo percebe-se o Teatro Carlos Gomes com os dois anexos inaugurados em maio de 1910.

O Cel. Manoel José Coimbra conseguiu da Câmara Municipal subvenção de 35:000$, isenção de impostos e outros favores para construir um grande teatro, que segundo os cálculos ficaria no total em pouco mais de 120:000$. (20) Lançou a primeira pedra em 11 de fevereiro e o terreno escolhido foi a Rua Edgard Ferraz fazendo fundos com a Rua Marechal Bittencourt.
Tudo acontecia dentro da normalidade, o Teatro Carlos Gomes recebendo espetáculos e organizando apresentações de filmes, como a anunciada em 15 de junho de 1912, porém um fato inédito ocorrera no sábado dia 29 de junho deste mesmo ano, o Teatro Carlos Gomes estava fechado (21). O motivo saberíamos posteriormente, o Cel. Manoel José Coimbra adoecera e em 05 de julho de 1912 falece aos 73 anos de idade.
A família do finado Cel. Manoel José Coimbra continua os espetáculos, assim em 24 de julho de 1912 é noticiado que o Carlos Gomes seria reaberto para abrigar a Companhia Carrara. (22) Em 31 de julho foi a vez do ilusionista indiano “Dr. Richard” fazer uma temporada no Teatro Carlos Gomes. (23) De fato foi a ultima temporada apresentada no velho Carlos Gomes. No final do ano, em 14 de dezembro é noticiado que estavam sendo removidos os últimos escombros do velho Carlos Gomes. (24) Daqui por diante até 1916 onde paramos com nossa pesquisa não se encontrou mais informações sobre a continuação desta obra após o falecimento do Cel. Manoel José Coimbra.
O Jornal Comércio do Jahu noticia em 14 de agosto de 1912, que era intenção da Câmara Municipal construir um novo jardim na Praça da República. Seu orçamento total era previsto em 200 contos de réis. Em 31 de agosto chegaram de trem os “elegantes e artísticos” postes a serem colocados na Praça da República, “mais ou menos iguais aos que existem no Teatro Municipal de São Paulo” (27)
A previsão para o inicio das obras era 11 de outubro de 1912, a planta achava-se na repartição de obras. (25) Porém os serviços começaram antes de 4 de outubro pois nesta ocasião o jornal Comercio do Jahu noticia que os canteiros estavam prontos e com as ruas delineadas, estando em adiantamento as sarjetas e anteparo dos canteiros que eram feitos com tijolos brunidos, vindos especialmente da capital. O coreto ainda estava só na base e fora projetado para comportar até 60 músicos. Para a iluminação elétrica estavam sendo colocados canos subterrâneos por onde passaram os fios. (28) Nos primeiros dias de dezembro foram iniciados pelo engenheiro municipal Antonio Gomes dos Reis os serviços preliminares de terraplanagem e locação propriamente das curvas do jardim. (32)
O Balancete publicado pela Câmara Municipal de Jahu em 24 de julho de 1913, fixa as despesas “extraordinárias” na execução do Parque da Praça da República, orçamento 48:000$000, despesas pagas, 7.629$850. (26)
Em 12 de março de 1914 a Câmara Municipal de Jahu publica balancete até 31 de dezembro de 1913 onde consta como despesa extraordinária o ajardinamento da Praça da República, despesa fixada 48:000$000, despesas pagas 14:206$150 (29)
Uma notícia inusitada nos dá idéia de quando ficou pronto o coreto da Praça da República. Um operário de nome Francisco Crischioli, de 35 anos de idade, ocupava-se por pintar o teto do novo coreto quando falseando um pé na taboa do andaime caiu de uma altura de 5 metros, machucando-se em diversas partes do corpo. O ferido foi conduzido em automóvel para sua residência onde recebeu os curativos necessários. Tudo isso ocorreu em 26 de março de 1914. (30)
As obras transcorriam durante o ano de 1914. Em junho de 1915, mesmo sem estar totalmente pronto, o novo Jardim já era regularmente concorrido para os passeios na calçada, pois a Praça achava-se cercada com arame farpado (31)
Finalmente em 30 de junho de 1915 foi franqueado ao público o ingresso imediato logo após a retirada da rústica cerca de arame farpado que o circundou desde o início da sua construção. De março de 1914 até 30 de junho de 1915 encarregou-se de terminar os serviços o engenheiro Horácio Sodré. (33) Não houve inauguração ou ato solene.


Figura - A Praça da República, finalmente "franqueada ao povo" em 30 de junho de 1915.
A primeira apresentação no novo coreto da Praça da República foi noticiada somente no sábado dia 19 de agosto de 1916, na ocasião, a banda “A Popular” se apresentaria no domingo as 18h. Regida por Américo Gobbato, o concerto no Jardim obedeceu o seguinte programa:
1 – “La Morena” – Dobrado
2 – São Paulo – Dobrado
3 – Idolo – Dobrado
4 – Lucreia Borgio – Sinfonia
5 – Quebra Pau Queimado – Tango
6 – Festa em Campanha – Sinfonica
7 – Meus passados – Valsa
8 – O ferro de Campina – Caterête
9 – Cinco Irmãos – Dobrado.(34)
A primeira execução da corporação musical “Carlos Gomes”, regida pelo Maestro Heitor Azzi apresentou-se pela primeira vez neste novo coreto em 14 de setembro de 1916 (35)
Foi assim que se deu a construção deste majestoso ponto turístico e histórico em Jahu.




Referências:
  1. Revista Energia – ano 4 – Edição 40 – Dezembro de 2013 pg. 22
  2. Comércio do Jahu – 17/11/1909 - Ano II – nº 131
  3. O Velho Teatro e o Jardim de Baixo – José Murilo de Almeida Prado – Comércio do Jahu (?)
  4. Comércio do Jahu – 04/09/1909 - Ano II – nº 110
  5. Comércio do Jahu – 06/10/1909 – Ano II – nº 119
  6. Comércio do Jahu – 27/03/1915 – Ano VII – nº 771
  7. Comércio do Jahu – 06/11/1909 – Ano II – nº 128
  8. Comércio do Jahu – 04/12/1909 – Ano II – nº 136
  9. Comércio do Jahu – 29/12/1909 – Ano II – nº 143
  10. Comercio do Jahu – 12/01/1910 – Ano II – nº 147
  11. Comércio do Jahu - 12/03/1910 – Ano II – nº 164
  12. Comércio do Jahu – 30/03/1910 – Ano II – nº 168
  13. Comércio do Jahu – 18/05/1910 – Ano II – nº 182
  14. Comércio do Jahu – 25/06/1910 – Ano II – nº 193
  15. Comércio do Jahu – 13/08/1910 – Ano III – n º 207
  16. Ata da Câmara Municipal de Jahu – 16/08/1910
  17. Comércio do Jahu – 17/08/1910 – Ano III – nº 208
  18. Comércio do Jahu – 27/08/1910 – Ano III – nº 211
  19. Comércio do Jahu – 15/11/1911 – Ano IV – nº 347
  20. Comércio do Jahu – 17/01/1912 – Ano IV – nº 364
  21. Comércio do Jahu – 29/06/1912 – Ano IV – nº 409
  22. Comércio do Jahu – 24/07/1912 – Ano IV – nº 416
  23. Comércio do Jahu – 31/07/1912 – Ano V – nº 418
  24. Comércio do Jahu – 14/12/1912 – Ano V – nº 457
  25. Comércio do Jahu – 11/09/1912 – Ano V – nº 430
  26. Comércio do Jahu – 24/07/1913 – Ano V – nº 534
  27. Comércio do Jahu – 06/09/1913 – Ano V – nº 554
  28. Comércio do Jahu – 04/10/1913 – Ano V – nº 566
  29. Comércio do Jahu – 12/03/1914 – Ano VI – nº 633
  30. Comércio do Jahu – 28/03/1914 – Ano VI – nº 640
  31. Comércio do Jahu – 12/06/1915 – Ano VII – nº 802
  32. Comércio do Jahu – 26/06/1915 – Ano VII – nº 808
  33. Comércio do Jahu – 01/07/1915 – Ano VII – nº 810
  34. Comércio do Jahu – 19/08/1916 – Ano IX – nº 982
  35. Comércio do Jahu – 14/09/1916 – Ano IX – nº 993


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